*Felipe F. Valoz Jr.
Ao se referir a Machado de Assis como ficcionista ou prosador, verifica-se uma significativa concordância de opiniões que o releva a um máximo de excelência que a linguagem literária brasileira pôde chegar. E é notável que sua produção como contista e romancista entre 1880 e 1908, atinge um nível de superioridade até mesmo em relação à sua própria e vasta produção realizada anteriormente. Não obstante às características que o distanciam do apelo imediatista romântico patriota, e dos elementos que compõe as narrativas pitorescas de então fazendo deste escritor brasileiro o merecimento de seu alcance e reflexão, no que tange a sua obra de poeta ou ampla elaboração de poemas, o mesmo tende ao desalento por parte da crítica.
Mas se a poesia não costuma ser considerada como a maior vocação de Machado de Assis, pode-se perceber aí algo que acentua um aperfeiçoamento artístico de linguagem e técnica. Consideramos que é possível detectar em certas poesias o mesmo espírito conciso e irônico, bem como a crítica arguta relativa aos dilemas e contradições do ser humano, e ainda no tocante ao ambiente literário, social e cultural brasileiro. A universalidade inegável que há prosa madura de Machado de Assis, com a diversidade de temas e personagens inquietantes, nos permite observar ainda que sua poesia aponta para um desdobramento do seu pensar, na espreita, no domínio do logos sobre as meras ilusões.
A proposição deste ensaio é a de verificar que em se tratando de uma linguagem poética, a mesma deve ser elaborada de maneira consciente dentro de uma tradição de aprendizado, procedimentos e técnicas que resultam no trabalho literário. Trata-se de considerar aí que a própria obra que traz em seu processo interno a consciência do valor estético, que por definição deve de algum modo, iluminar as contradições que se encontram no ambiente social e cultural em que se está inserida. Sugerimos especificamente que a poesia de Machado de Assis, mesmo em seu limiar parnasiano possui elementos de representação de uma realidade socialmente construída, e neste sentido em que se encontra, tem-se um mundo à parte, já que dialeticamente notamos aí que a fruição estética não é realizada na totalidade que representa. E isto quer dizer que há a consciência por parte do autor, de um limite ou alcance expresso na própria obra produzida em seu contexto. É de fundamental importância considerarmos a assertiva de Olavo de Carvalho de que a relação do público leitor no que diz respeito às informações suscitada nas impressões do poeta, não é direta e nem física, e sim imaginativa (CARVALHO, 2000). E ainda neste sentido, o que o poeta faz é produzir seja a partir de uma experiência interna ou externa (...), uma obra que para além de seu mero desejo de se comunicar estabelece uma intercomunicação com os outros indivíduos. Ora, a criação do poeta se dá através da força analogante das imagens e dos símbolos, uma área de experiência imaginativa comum, onde os indivíduos e mesmo as épocas podem se encontrar, vencendo no imaginário as barreiras que separam fisicamente suas respectivas vivências reais (CARVALHO, 2000).
Deste modo, buscamos examinar em três poemas de Machado de Assis, a saber - No Alto; O Desfecho; A Mosca Azul - da série intitulada Ocidentais, que no ano de 1879 tiveram as primeiras aparições publicadas na Revista Brasileira (BANDEIRA 1939, p.11). Esta série de poesias apenas foi publicada em sua totalidade posteriormente em 1901, fazendo parte do que formaram o volume das Poesias Completas (CASTELLO, 1999 vol. I; p.306). Notamos aí que a poesia de Machado atinge o ápice de uma evolução gradativa, que seguida de sua obra em prosa As Memórias Póstumas de Brás Cubas de 1881, sugerem já uma mudança radical do ponto de vista do escritor, que de acordo com Roberto Schwarz rearranjava a parafernália da ficção romântica de modo a sintonizá-la com uma questão histórica real, embutida nas linhas característica da sociedade brasileira, que lhe imprimiam a nota específica (SCHWARZ, 1998). Trata-se então de uma polarização dialética própria do trabalho do artista moderno em seu contesto histórico sócio-cultural para a realização de sua obra, que em nosso entendimento, já podem ser detectadas nas poesias machadianas das Ocidentais, (...) um exemplo heterodoxo de universalização do particular e de particularização do universal, ou de dialética (...), propriamente dito (SCHWARZ, 1998).
No processo de produção da poesia de Machado de Assis tornou-se um tanto óbvio a sua vinculação com o Parnasianismo, o que caracteriza na poesia o retorno à orientação clássica, ao princípio do belo na Arte, à busca do equilíbrio e da perfeição formal, indiferente ao mundo exterior. Mas um dado importante nos faz suspeitar da obviedade de associação direta do movimento com a poesia machadiana. Trata-se da assertiva de que ao se referir em uma crítica à nova geração de poetas em 1879, Machado de Assis nem se quer menciona o termo parnasiano, o mesmo (...) não aparece nem nos prefácios nem nas críticas senão pelos meados da década de 80. Falava-se sempre era em “realismo”, “Idéia Nova”. A estética parnasiana cristalizou-se entre nós depois da publicação de um livro em 1882 (...) (BANDEIRA, 1997 p.409). De um modo geral, pode-se atribuir ao Parnasianismo uma visão existencial do homem que se reduzia às aspirações do amor e da glória. Tais elementos de certa forma não passavam de ilusões que alimentavam a existência ou que impulsionavam uma conduta, que poderia atuar isoladamente ou em conformidade com as partes envolvidas. Porém, em tratando da sondagem astuciosa machadiana sobre a realidade brasileira, que apontava para significativas transformações políticas e sociais, abaixo das quimeras e entusiasmos extremos parnasianos, encontra-se reservado um juízo vigoroso acerca da existência mesma. Ora, observamos que em se tratando de um poeta considerado desde o início um mestre pelos nossos chamados parnasianos, seja na criação poética como em sua reflexão crítica, Machado propunha a sobriedade no tratamento temático tendente à reflexão, contornando o emocional através de um trabalho discreto, em suma racionalizando a comunicação de sentimentos (CASTELLO, 1999 vol.II; p.304). É importante considerarmos neste aspecto, que o estro machadiano sugere a oralidade, ou seja, pressupõe ou convoca a atenção do outro, o leitor ouvinte, para as mencionadas aspirações da existência humana, que podem ser vistas dialeticamente em conflito, sobretudo por encontrarem por um lado no domínio da subjetividade, e por outro lado nos limites das relações sociais. Em uma esfera que dificilmente podem-se romper as tensões e estabelecer equilíbrio.
Cabe-nos ressaltar juntamente com crítico Manuel Bandeira que (...) infelizmente o poeta calou-se quando chegado ao alto da montanha (BANDEIRA, 1939 p.11). A vocação de prosador se impôs de tal modo que a retórica de Machado de Assis faz dele mesmo um narrador no sentido atribuído por Walter Benjamim, ou seja, (...) o narrador é o homem que poderia deixar a mecha de sua vida consumir-se integralmente no fogo brando de sua narrativa (BENJAMIM, 1983 p.74). Neste mesmo sentido benjaminiano, poderíamos entrever que Machado de Assis se supera com a prosa, já que a relação que o poeta mantém com sua matéria, a vida humana, é ela própria uma relação artesanal. O próprio Machado oferece pistas dessa grave noção de artífice literário, quando argumenta em 1879, na crítica Nova Geração, que (...) a poesia não é, não pode ser eterna repetição; esta dito e redito que ao período espontâneo e original sucede a fase da convenção de do processo técnico, e é então que a poesia, necessidade virtual do homem, forceja por quebrar o molde e substituí-lo (MACHADO DE ASSIS, 1997 p. 810).
Se na crítica podemos perceber a lucidez de Machado de Assis para com a realidade literária brasileira, atestando que a (...) poesia subjetiva chegara efetivamente aos derradeiros limites da convenção (...) e ainda chama atenção para a questão de que não há como esquivar-se às condições do ambiente social então vigente, ou seja, a influencia externa determina o movimento de uma geração de poetas seja qual forem seus talentos (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.813); de outro modo, é possível notar a mesma concisão e perspicácia que testemunha o ponto de vista do escritor brasileiro no poema que encerra as Ocidentais:
NO ALTO
O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura má.
Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que será.
Como se perde no ar um som festivo e doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,
Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro estendeu-lhe a mão. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p. 179)
É inevitável formar a idéia de que já se resguarda aí a argúcia do autor e do narrador de As Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Todavia, é escusado dizer que o tom melancólico, não destituído da ironia machadiana, aponta para uma noção de perplexidade diante da realidade e situação brasileira, bem como para a responsabilidade de escritor, que já na ocasião enxergava como crítico e sentenciava, (...) não há por ora no nosso ambiente a força necessária à invenção de doutrinas novas. Creio que isto chega a ser uma verdade de La Pallisse (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.803). Trata-se do desenvolvimento de um ponto de vista que adquire uma radicalização pessimista.
Provavelmente, para os desígnios literários que abrange Machado de Assis nas relações entre literatura e sociedade, a partir de seu ponto de vista efetivado entre a fleuma e a crueldade, a prosa desenvolvidas no romance e no conto, permitiria uma crítica sócio-política mais acintosa, objetiva e precisa da realidade brasileira do século XIX, e que ainda se faz presente. No que se refere à atualidade de Machado de Assis há uma interessante assertiva de Schwarz de que a cada geração a vida intelectual no Brasil parece recomeçar do zero, em função de um anseio por novidades provenientes da produção intelectual dos países considerados avançados. O mesmo acarreta no (...) desinteresse pelo trabalho da geração anterior, e a conseqüente descontinuidade de reflexão (...), percepções e teses notáveis a respeito da cultura do país são decapitadas periodicamente, e problemas a muito custo identificados e assumidos ficam sem o desdobramento que lhes poderia corresponder (...) (SCHWARZ, 1986). Assim, considerando o conjunto da obra machadiana, confirma-se que não lhe faltou informação, bem como a abertura para o interesse atual.
Não obstante, Manuel Bandeira ao se referir às Ocidentais nos chama atenção para o fato de que (...) os temas que cristalizaram as melhores energias poéticas de Machado de Assis, são os mesmos de suas obras referenciais tanto no conto como no romance. Bandeira ainda argumenta que (...) a vida dos seus semelhantes lhe fornecia maior variedade de gestos com que exprimir as dolorosas conclusões da sua análise implacável. Na poesia, forma mais essencial, toda sua amarga filosofia estava expressa e esgotada naqueles poucos e admiráveis poemas (BANDEIRA, 1939 p.14). Torna-se evidente que o domínio das técnicas literárias por parte de Machado de Assis, incluindo naturalmente as exigências da metrificação do verso em seu tempo, contribuíram para sua linha evolutiva como escritor. Outro dado relevante que orientou este desenvolvimento é o que assegura Antônio Candido, ou seja, Machado de Assis pressupõe a existência dos predecessores, e esta é uma das razões da sua grandeza: numa literatura em que, a cada geração, os melhores recomeçam “da capo” e só os medíocres continuam o passado, ele aplicou o seu gênio em assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores (CANDIDO, 1997 p.104).
Não podemos deixar de considerar que se existem qualidades em Machado de Assis, estas não são meramente pessoais. Sua obra afirma uma universalidade a partir de um complexo caráter local que procede da apropriação de uma técnica. Admitir qualquer coisa ao contrario disso poderia se incorrer num mero equivoco de subjetividade ou lirismo romântico, ou mergulhar num misticismo embusteiro. Portanto, é significativo que haja em Machado de Assis uma perspectiva que ultrapassa o pessoal e que se radicaliza de modo dialético trágico, irônico e pessimista, por uma via de negatividade, e também porquê distingue-se em seu procedimento de escritor, autor ou artista, o que poderíamos chamar de um horizonte de nação. E neste mesmo propósito identificamos no poema que abre as Ocidentais algo que não poderia ter sido escrito num ambiente que não fosse o Brasil vivenciado por Machado de Assis:
O DESFECHO
Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.151)
.
Chamamos a atenção para confirmar a perplexidade que este soneto suscita, a começar pelo personagem central da tragédia de Ésquilo. E este mesmo herói trágico é uma referência para aqueles que apreciam a aptidão de realmente poder mudar a realidade. Trata-se de um mito da mudança definitiva, e também do mito fundador da cultura. Curiosamente, Marx o tem como herói favorito por esse seu significado transformador e pelo seu caráter de revolta descrito em sua tese de doutorado de 1841, e que é bastante compatível com a descrição que Goethe faz acerca de um homem que se nega a venerar deuses ou estar sob submissão de alguém. (...) A consciência não pode ser nunca outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é um processo de vida real (MARX Y ENGELS, 1958 p.25). Um outro dado significativo é que Prometeu também diz respeito àquele que sabe antecipadamente, o que demonstra mais uma vez a argúcia do poeta na proposição do título do poema (O Desfecho) que dialeticamente abre as Ocidentais. Notamos aí um traço da ironia, bem como aspectos do pessimismo machadiano que denota um sentido de destino, ou seja, se no início do soneto o poeta parece sugerir ou dar um jeito na situação do herói, posteriormente, aos poucos, o que há é uma espécie de descrença total que dá cabo do destino do mesmo. O que aponta para uma clara noção de perplexidade perante a situação, que de soslaio é bem realista e característico do autor.
É importante salientar que perplexidade trata-se de um estado intelectual de indecisão, ou ainda um estado emotivo que surge a partir de um certo grau de confusão, além de conflitos impulsivos. Platão enunciou que a perplexidade era também fonte da Filosofia, pois o homem busca respostas às questões que o deixam atônito ou irresoluto (SANTOS, 1965 p.886) Portanto, se nos reportarmos ao ambiente político-social vivenciado por Machado de Assis, através de seu trabalho de artista podemos supor as interrogações que nele eram suscitadas. Pois se a razão se constitui neste aspecto, todas as coisas são perguntas, as quais provocam a indecisão e a falta de clareza.
A perspicácia de Machado de Assis tinha como grande desafio a própria realidade, ou seja, o contato com o real da sociedade brasileira diferenciava-o dos outros escritores que também as piravam por um horizonte de nação. Machado acaba sugerindo-nos através dessas suas poesias que o trágico, a crueldade, são fundamentais para sermos aquilo que somos hoje. Trata-se de uma defesa do real que é inexorável, e não uma distorção do mundo como de fato é, e aí se encontra a complexa questão que envolve a noção de ideologia e conseqüentemente a reificação e a fetichização, que tendem para o abismo da subjetividade, alienação e ao mesmo tempo a sujeição ou dependência. Na arte machadiana nunca temos uma resposta suficiente aos porquês, mas uma iluminação para os problemas. E isto define um ofício fundamental para a grande obra de arte. Se do contrário obtivéssemos uma resposta, estaríamos estabelecendo uma troca do que é pelo que parece ser, o que define um processo de reificação, que por sua vez leva a refletir-se na própria ilusão.
Não obstante as acentuadas críticas ao Machado poeta em detrimento do grande prosador, as Ocidentais traz um poema cujo tema aponta para as características machadianas do narrador de As Memórias Póstumas..., Com a diferença de que o personagem que serve de inspiração para o poeta, é o excluído da sociedade. E ainda podemos ter um a noção de que o estilo se encontra no domínio da própria técnica bem como também sugere uma reflexão dialética sobre o risco constante que a Arte corre, desde que moderna, em seu processo de autonomização de tornar-se ela mesma, fetichizada:
A MOSCA AZUL
Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.
E zumbia, e voava, e voava, e Zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua, - melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mongol.
Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
“Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que to ensinou?”
Então ela, voando, e revoando, disse:
“Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.
E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.
Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço.
E viu um rosto, que era o seu.
Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vichnu.
Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.
Mudos, Graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios,
Voluptuosamente nus.
Vinha a Glória de pois; - quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.
Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.
Então ele, estende a mão calosa e tosca,
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar
Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa partiu.
Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.
Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil,
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e subtil.
Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.163)
Em um exame mais atento em se tratando de uma exposição panorâmica da história do Brasil, através da Literatura, o que se percebe é uma situação bastante peculiar. Até meados de 1810 com a recém chegada Corte Portuguesa no Brasil, não havia uma proximidade entre as classes sociais, as regiões ignoravam-se. Os agrupamentos se davam em pouco espaço, como é mencionado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, talvez o mesmo se dava pela dimensão territorial desproporcional ao número de pessoas. Dentre as várias metáforas machadianas a que diz respeito à plasticidade e maleabilidade da sociedade brasileira, parece ser privilegiada, além do quê Machado torna-se justamente um arguto crítico da abstração da qual o Brasil era tratado pelos seus. De um lado a exuberância da natureza, de outro o mar, e de certa forma no meio uma faixa na qual a população habita.
As Ocidentais, que por ora destacamos três significativos poemas, apresentam um Machado de Assis que se preocupa em descrever uma imagem do Brasil, que será coroada com a obra romanesca que se segue. Tal imagem que ocorre através da criação literária supre o desejo de se ter uma identidade própria, sobretudo depois da Independência. Ora, a partir da necessidade de se definir, o Brasil cria-se uma literatura para dar-se uma imagem. Porém, é interessante notar que a via machadiana para estabelecer uma noção de brasilidade surge de uma recusa, que pode ser exemplificada pela crítica que o próprio Machado faz à hegemonia positivista que se afirma na passagem da abolição da escravatura e a proclamação da República. E se há uma representação, um progresso mimético que em Machado de Assis culmina dialeticamente numa mudança radical de ponto de vista, que deixa entrever uma posição política do artista, por outro lado a questão nacional se torna espinhosa, justamente em sua literatura de estatura universal, aquela que tem um sentido de perplexidade e crueldade. A crítica literária contemporânea em sua representação deve-se buscar um horizonte nacional, uma retomada do projeto de nação, e a melhor sugestão é a de partir dos silêncios e sussurros machadianos, da densidade das contradições de Machado de Assis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
ASSIS, Machado de (1997). Ocidentais. Obras Completas; vol. III. 9 ed., Rio de Janeiro, Aguillar.
______________________ Crítica. Obras Completas; vol. III 9 ed., Rio de Janeiro, Aguillar.
BANDEIRA, Manuel_ (1939) O Poeta (Publ. em Revista do Brasil, RJ, ano II,no. 12, jun). In: ASSIS, Machado de (1997) Obras Completas; vol.III 9 ed., Rio de Janeiro, Aguillar
____________________(1997) Seleta de Prosa; Rio de Janeiro; Nova Fronteira.
BENJAMIN, Walter (1983) O Narrador; in: Textos escolhidos ( Os Pensadores); 2 edição, São paulo; Abril Cultural.
CANDIDO, Antonio (1997) Formação da Literatura Brasileira; vol. II; 8 edição, Belo Horizonte-Rio de Janeiro; Editora Itatiaiaia Limitada.
CARVALHO, Olavo de (2000) Poesia e Filosofia - http://www.olavodecarvalho.org/apostila/poefilo.htm Acesso em 23/06/2007
CASTELLO, José Aderaldo (1999) A Literatura Brasileira: Origens Unidades- vol I. São Paulo; Edusp.
MARX,Karl y ENGELS, Friedrich (1958). La Ideologia Alemana; Montevideo; Pueblos Unidos.
SANTOS, Mário Ferreira dos (1965) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais- vol. III 3 edição; São Paulo; Editora Matese.
SCHWARZ, Roberto (1986) Nacional por Subtração - http://antivalor.vilalol.uol.com.br/schwarz_index.htm
Acesso em: 02/07/2007
_________________(1998) A Viravolta Machadiana - http://antivalor.vilalol.uol.com.br/schwarz_index.htm
Acesso em: 27/06/2007

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