sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pervertendo a Igreja



"Os homens da igreja, isto é, aqueles ministros ou sacerdotes de várias hierarquias e denominações, representam um setor que tem habilidade especial para comunicar-se com o povo, particularmente os trabalhadores, camponeses, e a mulher brasileira. O sacerdote que é um guerrilheiro urbano é um ingrediente poderoso na guerra revolucionária brasileira (...)"

Carlos Marighella, "Mini Manual do Guerrilheiro Urbano"



A Igreja Católica Apostólica Romana raramente foi considerada apenas uma instituição como as outras. Seu caráter específico de guia moral e espiritual de mais de um bilhão de pessoas no mundo, sua capacidade de renovação interna e perpetuação, seu aparato de doutrina e mesmo seus grandes filhos – como um São Francisco de Assis, um São Tomás de Aquino ou um Santo Agostinho só para citar os mais ilustres – dá a esta um caráter digno de atenção reverente por parte do observador, mesmo que dito seja um inimigo dela.

Foi a partindo da observação da influência da Igreja (ou mesmo da influência potencial que a mesma poderia ter sob certas circunstâncias-chave) que alguns ideólogos, homens inescrupulosos e grupos revolucionários suspiraram por usá-la como instrumento de seus objetivos privados, mesmo que os objetivos coincidissem com a própria destruição da Esposa de Cristo na Terra. Usar sua estrutura para atingir objetivos diferentes dos da Igreja, aproveitar de sua credibilidade sacra como instrumento de defesa e legitimação diante da massa, escorar-se nos templos sagrados e lugares protegidos pela lei com a maliciosa intenção de, se possível, reformar a própria estrutura da realidade...!

Sim, tudo isso já foi feito no passado, mas muito disso ainda é hoje real e efetivo, com uma malícia e ostensividade invejáveis até mesmo ao pior dos revolucionários antigos.

Cabe aos católicos, com prudência e sinceridade, encontrar os espécimes dessa praga cancerosa, que corrosivamente procura desestabilizar os alicerces da civilização destruindo um dos seus baluartes, que é o Cristianismo. Exatamente por isso, apresento-lhes uma breve exposição sobre uma das figuras-chave de um desses grupos (os revolucionários comunistas) desde longa data infiltrados na Igreja[1], o "frei Betto", cujo nome de batismo é Carlos Alberto Libânio Christo.

Este é um dos principais pseudo-católicos que, mesmo apresentado como "anjo de luz" segundo a grande mídia, deixa em tudo um inconfundível odor de hipocrisia e falsidade, bem como faz apologia de terroristas e assassinos - coisa que pretendo demonstrar. Usando da boa-fé dos mais ignorantes e da inegável influência da Igreja Católica, Betto procura apropriar-se efetivamente das diferentes estruturas de poder e administração do clero através de sua atividade intelectual, visando forjar um pretenso apoio da Igreja (e não só me refiro à Igreja enquanto 'comunidade dos fiéis', mas exatamente enquanto "doutrina e princípios salvaguardados por esta instituição") àquilo que defende com ardor: o socialismo-comunismo.

Politicamente envolvido com o socialismo, 'frei' Betto desde muito cedo participou da JUC, que por sua simbiose com a UNE na década de 60, tornou-se cada vez mais voltada para as idéias comunistas. Ajudou o terrorista[2] e assassino Carlos Marighella, junto com mais alguns dominicanos de São Paulo, inclusive tornando-se membro da ALN e participando de inúmeros crimes, dos quais pelo menos por um foi preso: assalto à mão armada (um dos meios mais utilizados pelo grupo terrorista ALN para arrecadar fundos depois dos subsídios financeiros dos comunistas cubanos).

Frei Betto agia, então, não só como um dos "representantes da Igreja" (sic!) naquele locus, mas apoiava assassinos cruéis, assaltantes (sendo ele mesmo um), terroristas; estava sempre participando ativamente da ALN como organizador das rotas de fuga internacionais para os guerrilheiros terroristas no sul do país (posteriormente, eram encaminhados para Cuba, com a finalidade de receberem treinamento militar)[3], ajudando a criar uma guerrilha rural, e por fim usando da infiltração na imprensa como meio de difusão ideológica.

Eis um daqueles que se ousa declarar servo de Cristo vivendo como Barrabás: dando apoio a assassinos, realizando assaltos, protegendo e auxiliando no treinamento de terroristas e na propaganda do regime castro-comunista de Cuba como ideal a ser implantado no Brasil. Sim, meus caros, o regime ASSASSINO que só em Cuba matou cerca de 100 mil pessoas em menos de 50 anos de ditadura totalitária. O regime vergonhoso que destrói as liberdades mais fundamentais dos seus cidadãos (criando um verdadeiro "apartheid" entre visitantes esporádicos e moradores fixos da ilha) e MATA quando, oprimidos pela ineficácia e pela coerção física, estes procuram fugir da miséria indo para outros países vizinhos[4]. O mesmo tipo de governo demoníaco que matou cerca de 40 milhões de pessoas de fome em apenas 10 anos na China. O mesmo tipo de governo que foi o pai dos campos de concentração(gulags) na Sibéria, posteriormente copiados por Hitler.

É esse tipo de "governo solidário" que queria 'frei' Betto para o Brasil...!

Filho da infame e já condenada "Teologia da Libertação"[5] (TdL), 'frei' Betto diz que é um verdadeiro cristão aquele que defende o "socialismo" como única alternativa para a "futuro"[6]. Sem pudor algum, procura defender que mantém um "diálogo"(sic) entre o cristianismo e o sistema de poder mais cruel, assassino e violento da história (o socialismo). Chega mesmo ao disparate de afirmar que não há como ser cristão sem defender o socialismo[7] e reitera que "o nome político" do amor é "socialismo"[8].

Diálogo? Não, caríssimos. Não há diálogo, há subversão da mensagem de Cristo. Há falsificação dos princípios evangélicos. Há hipocrisia e fingimento, manipulação e cinismo! São falsos pastores, como lobos em pele de cordeiros. Prova disso é a declaração que L.Boff que nos dá: "O que propomos não é teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da teologia"[9]. É, assim, evidente que o materialismo marxista é totalmente incompatível com o cristianismo, já que defende que o espírito provém da matéria (e não o inverso, conforme ensinam os cristãos). Não há 'diálogo' possível: há princípios diametralmente excludentes entre si. A negação da transcendência espiritual é, assim essencialmente, intrínseco ao método materialista da 'TdL'.

E que "amor" seria esse? Um sistema político que diretamente matou por motivos anti-religiosos, políticos e estratégicos ao menos 100 MILHÕES de pessoas[10] é caridoso? É amoroso um sistema que preza por meios de ação totalitários, matando a quem deles deseja retirar-se? Um sistema que escraviza em campos de concentração os que ousam falar que discordam das políticas governamentais é conforme o coração de Deus?? Há o amor verdadeiro num governo que se fundamenta em ideólogos que instigam (e praticam!) a blasfêmia contra Deus e contra Cristo de modo sistemático e contínuo[11]?

Quando foi que o mal transmutou-se em bem e o bem, em mal??

Usando de um maniqueísmo barato, Betto e muitos dos seus aliados da 'TdL' procuram enganar aos cristãos, pervertendo ostensivamente as interpretações bíblicas e os exemplos de Cristo segundo a mentalidade comunista revolucionária: Cristo foi um "preso político"[12], o evangelho prega a "libertação dos pobres"[13], o socialismo é uma "etapa do reino de Deus na terra"[14], diz até que a "civilização da solidariedade é uma civilização socialista"[15], considera que todas as pessoas pobres são "privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna"[16]... Em suma: reza a cartilha de um agente pseudo-católico que usa da Igreja para defender sua podridão ideológica comunista pelos quatro cantos, com a desculpa de ser "pregação"(propaganda) do "reino de Deus"(comunismo).

Só a falsificação dos termos tradicionais da fé e as distorções já são prova das más intenções do frade hipócrita, bem como da credibilidade daquilo que ousa defender sob o nome de Cristianismo. Ora, Jesus Cristo não morreu como 'preso político', mas sim foi condenado por ter dito pretensas blasfêmias (cf. Mt 26,65-66; Mc 14,61-64). O Evangelho não prega a libertação dos 'pobres' de sua pobreza material, senão dos 'pobres de espírito' (cf. Mt 5,3). O Reino de Deus não é deste mundo (Jo 18,36-37), e por conseguinte é impossível que o corrupto socialismo seja parte desse reino, já que é um dos piores (provavelmente 'o' pior) sistemas de poder sócio-político que a humanidade já experimentou em todos os tempos.

Em cada texto, mais contradições saltam aos olhos. Cada interpretação, um distorção! Em todo artigo, livro ou palestra, Betto representa e finge ser um bom cristão, quando na verdade só quer transformar o cristianismo em um trampolim para a formação de socialistas e militantes políticos[17]. Seu intento é submeter o espírito apenas para os fins materiais; é colocar o relativo e o temporal como mais importante que o absoluto atemporal. É trocar Deus por latinhas...! É – invertendo a realidade – usar do Criador para buscar a criatura.

Essa idolatria essencialmente anti-cristã já existe desde longa data na pessoa do pseudo-'frei' Betto. Fato que demonstra a ausência de remorso ou arrependimento pelos seus crimes do passado, bem como dos crimes que a ALN e congêneres praticaram é que 'frei' Betto ajudou na fundação da principal associação de partidos comuno-socialistas das mais diferentes vertentes da América Latina: o Foro de São Paulo[18], associação que hoje defende desde partidos de esquerda "democrática"(sic) - PT, PPS, PSB, PCB, PDT- até grupos escancaradamente criminosos como as FARC, MST (sendo que especialmente as CEB's - instrumentos da 'TdL' da dupla Betto/Boff - foram responsáveis pela formação de 26 grandes líderes do MST, muitos deles testemunhando claramente a influência de 'frei' Betto nas suas idéias e militâncias) , MIR, ELN, o PCC[19], etc. Além disto, participou ativamente como diretor[20] da revista porta-voz do Foro de São Paulo, a "America Libre", revista que mantém a coesão ideológica e comunicação entre os grupos do Foro. Ou seja: além de dar o aval para crimes no passado, hoje também é conivente com crimes, seqüestros, assassinatos, roubos e tráfico de drogas. Um verdadeiro demônio.

O uso estratégico que 'frei' Betto faz da estrutura da Igreja contra a Igreja mesma já havia sido prenunciado por um teórico socialista, fundador do partido comunista da Itália: Antonio Gramsci. Gramsci defendia que o principal inimigo da revolução socialista no mundo é a Igreja Católica[21], por seu caráter específico de "guia do sentido comum". Compreendendo isso, Olavo de Carvalho sintetiza: "Nascido de uma aliança entre os comunistas e a esquerda católica, o PT veio imbuído do projeto gramsciano de subverter a Igreja por dentro, esvaziando-a de seu conteúdo espiritual e fazendo dela o instrumento dócil do que pode haver de mais anticristão no mundo, a revolução comunista. Se isso não é uma forma extrema de heresia messiânica, não sei em que outra classificação possa caber."[22] E reitera, citando Gramsci: "A Igreja Católica é o inimigo número um"[23].

Como o pseudo-frei dominicano, cinicamente, finge não saber que o socialismo-comunismo já foi formalmente condenado no passado por diversos papas, inclusive sendo considerado "intrinsecamente mau" (Pio XI , Divini Redemptoris), e sofrendo uma excomunhão ("Decretum Contra Communismum", do Papa Pio XII) baixada tanto para seus defensores como seus colaboradores em 1949, que vigora até hoje? Como ele pode dizer-se católico sendo admirador descarado de Gramsci, como ficou patente inúmeras vezes em seus discursos[24] e textos? Como pode ser católico e socialista ao mesmo tempo, sendo que Pio XI, na encíclica "Quadragésimo Anno" ensinou que o "socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser, ao mesmo tempo, bom católico e verdadeiro socialista”?

Simples: Betto sabe disso, mas oculta as informações relevantes ao máximo, desviando o olhar das pessoas para as teses que o mesmo deseja que os fiéis assumam no lugar do verdadeiro catolicismo. Como um agente infiltrado na Igreja, procura dividi-la para então enfraquecer a oposição ao projeto de revolução socialista que os cristãos tradicionalmente adeririam, caso houvesse coesão interna dentro do catolicismo.

Carlos A. Libânio Christo não quer ser mensageiro de Cristo; quer Cristo como meio (estratégia) para um fim (comunismo), e não como um fim em si mesmo.

Deus é instrumento para o pseudo-frei Betto - e não o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim.

Ser defensor dos traficantes, assassinos, assaltantes e seqüestradores das FARC no Brasil e seu contato de confiança no governo petista[25]? Assaltar e seqüestrar, perverter o evangelho em favor de estratégias políticas? Isso sim, 'aleluia'!

Defender a Revelação do Deus vivo encarnado em Jesus Cristo – Caminho, Verdade e Vida? De jeito nenhum, isso é coisa de reacionário direitista...!

Eis os fatos sobre o homem que apresenta o porco fedorento (segundo pontual definição de Diogo Mainardi...) Ernesto Guevara como um mártir da justiça, que seus amigos – pasmem – até transformaram em "santo popular" para enganar os católicos simples e ignorantes de Cuba![26]

Julguem vocês mesmos: que merece um indivíduo desses? Qual a credibilidade de um homem que não consegue sequer manter um pensamento coerente num artigo ou sobre um assunto, falsificando-se a si mesmo??[27] Que Deus tenha misericórdia da alma de Betto e de todos aqueles que por ele foram enganados... E que Deus nos dê coragem para manifestar a verdade contra tais asseclas da destruição.


Da hipocrisia socialista e das manobras ideológicas, livrai-nos Senhor!

"Jesus disse: Se falei mal, prova-o, mas se falei bem, por que me bates?" (Jo 18, 23)



[1] Isso não é uma afirmação pouco fundamentada, posto que há muitas comprovações de grupos que no passado estiveram infiltrados dentro da Igreja Católica. Vide, por exemplo, o livro "AA 1025 - Memórias de um anti-apóstolo", de Marie Caree (no qual conta-se o projeto "Cavalo de Tróia", com informações extraídas dos documentos encontrados junto com cadáver de um padre que morreu acidentado – na verdade, o 1025º comunista infiltrado como padre); bem como o opúsculo "Masterplan" do sr. J.Domínguez ; indícios recentes disso encontramos, por exemplo, com a auto-denúncia e pedido de renúncia do bispo Stanislaw Wielgus ao Vaticano, as declarações do pe. Michal Czajkowski; os estudos do Pe. Peter Gumpel e as denúncias do Cardeal Joseph Glemp; o artigo do ex-general soviético Ion Mihai Pacepa sobre as ações da KGB para infiltrar-se na Igreja; a lista de maçons infiltrados no clero, do jornalista Carmine Pecorelli; entre outros.

[2] Se alguém duvidar, veja as posições sobre o terrorismo que o sr. Carlos Marighella defendia e incitava neste site de tendências socialistas: http://www.dhnet.org.br/dados/livros/memoria/mundo/marigue.htm#m

[3] Discurso do próprio frei Betto - "Lutar pela implantação do socialismo até o último dia de nossas vidas": http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/freibetto/betto_socialismo.html); Para mais, vide os livros "ORVIL" e "A Verdade Sufocada: a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça".

[5] 'Teologia da Libertação' é um movimento teológico que procura sintetizar num só grupo 'coeso' visões completamente divergentes: o marxismo e o cristianismo. Sua sistematicidade só veio a ser estabelecida na América Latina com o Pe. Gustavo Gutiérrez, mas sua origem e inspiração remonta meados das primeiras décadas do século XX, tanto que no Concílio Vaticano II, a influência de algumas idéias que posteriormente seriam sistematizadas como fundamentais para a Teologia da Libertação ali foram ao menos defendidas veladamente. Foi explicitamente condenada duas vezes (1984/1986) por seus excessos, dentre eles alinhamento com movimentos de guerrilha revolucionária, uso metodológico do materialismo dialético marxista e recorrente reinterpretação de dogmas católicos segundo uma ótica da heresia modernista. Evidentemente, tal 'teologia' está intimamente ligada com a infiltração comunista no clero católico.

[6] Folha de S.Paulo - 21/09/2003 - 05h21 - http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u63287.shtml

[7] Folha de S.Paulo - 21/09/2003 - 05h21 -http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u63287.shtml

[8] Cuba: Esperanza Socialista - 08/02/08 - http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=ES&cod=31579

[9] Jornal do Brasil - 06/04/1980 - (in: Revista "Catolicismo", n.° 421, Janeiro de 1986)

[10] Vide pesquisa do Prof. R.J.Rummel - http://www.hawaii.edu/powerkills/welcome.html

[11] Vide livro do pastor Richard Wurmbrand: "Torturado por amor a Cristo"; várias editoras.

[12] Frei Betto - 26/06/2001 - Palestra: "A Crise de modernidade e espiritualidade"; ver também artigo "Fé e Política", presente no link abaixo - http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=8030

[13] Frei Betto - Artigo: "Democracia e Poder".

[14] Cf. Dr. Plíno C. de Oliveira - livro "As CEBs... das quais muito se fala e pouco se sabe", pp.158, 147 e 162

[15] Frei Betto - Artigo: "Valores de uma nova civilização".

[16] Frei Betto - Artigo: "Dez conselhos para os militantes de esquerda".

[17] Seu "companheiro" Genésio (vulgo 'Leonardo') Boff disse sobre a TdL: "(...) Nós não estamos interessados em que haja mais cristãos, estamos interessados em que haja mais cidadãos participativos, sensíveis, justos, lutadores pela libertação dos seres humanos, e o cristianismo como uma fonte geradora de pessoas assim." (entrevista à Radiobras, 01/12/2003). E também: "É preciso dizer claro e vigoroso: a libertação é a emancipação social dos oprimidos. Trata-se concretamente para nós de superar o sistema capitalista em direção a uma nova sociedade de tipo socialista" (L e C. Boff, livro - "Da Libertação", p. 113). Coroando tais citações, termino com esta: "O Reino de Deus é concretamente o socialismo" (Idem, p. 96)

[18] Cf. Anatoli Oliynik - http://www.samauma.com.br/samauma/ao005forosp.htm ; Cf. Alejandro Penã Esclusa - http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=145

[19] PCC – Partido Comunista Cubano, responsável pelas mortes do regime totalitário de Cuba.

[20] Vide: http://www.nodo50.org/americalibre/anteriores/21/betto21.htm

[21] Carlos Azambuja - artigo "O Pensamento de Gramsci" - 28 de abril de 2005:
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3596

[22] Olavo de Carvalho - "PT, o partido dos ricos" - http://www.olavodecarvalho.org/semana/080121dc.html

[23] Olavo de Carvalho - artigo disponível no link - http://www.olavodecarvalho.org/semana/srmarques.htm

[24] Como o do 5º Fórum Social Mundial, no qual pediu uma salva de palmas para Marx e declarou que "estamos (nós = PT e cúpula socialista da qual fez parte) no governo, mas não no poder" – referindo-se ao clássico conceito gramsciano de hegemonia aplicado à realidade brasileira.

[25] Um dos chefes máximos das FARC, “Raul Reyes” (Luiz Antonio Devia), declarou em entrevista à Folha de S. Paulo de 27 de agosto de 2003: As Farc têm contatos não apenas no Brasil com distintas forças políticas e governos, partidos e movimentos sociais. Folha: O senhor pode nomear as mais importantes? Reyes: Bem, o PT e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas”. Folha: “Quais intelectuais?” Reyes: “Emir Sader, frei Betto e muitos outros”. (vide: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3290)

[26] Ridículo - mas necessário - ler isso: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2247

[27]www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=polemicas&artigo=20050910185851&lang=bra ; Também vide a incoerência contraditória de Betto sobre a pena de morte no artigo "Pena de Morte" comparado com o livro "Nos Bastidores do Socialismo". Verifiquem as datas das declarações e sorriam...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

PERPLEXIDADE E DIALÉTICA NUM CERTO PANASO MACHADIANO

*Felipe F. Valoz Jr.

Ao se referir a Machado de Assis como ficcionista ou prosador, verifica-se uma significativa concordância de opiniões que o releva a um máximo de excelência que a linguagem literária brasileira pôde chegar. E é notável que sua produção como contista e romancista entre 1880 e 1908, atinge um nível de superioridade até mesmo em relação à sua própria e vasta produção realizada anteriormente. Não obstante às características que o distanciam do apelo imediatista romântico patriota, e dos elementos que compõe as narrativas pitorescas de então fazendo deste escritor brasileiro o merecimento de seu alcance e reflexão, no que tange a sua obra de poeta ou ampla elaboração de poemas, o mesmo tende ao desalento por parte da crítica.

Mas se a poesia não costuma ser considerada como a maior vocação de Machado de Assis, pode-se perceber aí algo que acentua um aperfeiçoamento artístico de linguagem e técnica. Consideramos que é possível detectar em certas poesias o mesmo espírito conciso e irônico, bem como a crítica arguta relativa aos dilemas e contradições do ser humano, e ainda no tocante ao ambiente literário, social e cultural brasileiro. A universalidade inegável que há prosa madura de Machado de Assis, com a diversidade de temas e personagens inquietantes, nos permite observar ainda que sua poesia aponta para um desdobramento do seu pensar, na espreita, no domínio do logos sobre as meras ilusões.

A proposição deste ensaio é a de verificar que em se tratando de uma linguagem poética, a mesma deve ser elaborada de maneira consciente dentro de uma tradição de aprendizado, procedimentos e técnicas que resultam no trabalho literário. Trata-se de considerar aí que a própria obra que traz em seu processo interno a consciência do valor estético, que por definição deve de algum modo, iluminar as contradições que se encontram no ambiente social e cultural em que se está inserida. Sugerimos especificamente que a poesia de Machado de Assis, mesmo em seu limiar parnasiano possui elementos de representação de uma realidade socialmente construída, e neste sentido em que se encontra, tem-se um mundo à parte, já que dialeticamente notamos aí que a fruição estética não é realizada na totalidade que representa. E isto quer dizer que há a consciência por parte do autor, de um limite ou alcance expresso na própria obra produzida em seu contexto. É de fundamental importância considerarmos a assertiva de Olavo de Carvalho de que a relação do público leitor no que diz respeito às informações suscitada nas impressões do poeta, não é direta e nem física, e sim imaginativa (CARVALHO, 2000). E ainda neste sentido, o que o poeta faz é produzir seja a partir de uma experiência interna ou externa (...), uma obra que para além de seu mero desejo de se comunicar estabelece uma intercomunicação com os outros indivíduos. Ora, a criação do poeta se dá através da força analogante das imagens e dos símbolos, uma área de experiência imaginativa comum, onde os indivíduos e mesmo as épocas podem se encontrar, vencendo no imaginário as barreiras que separam fisicamente suas respectivas vivências reais (CARVALHO, 2000).

Deste modo, buscamos examinar em três poemas de Machado de Assis, a saber - No Alto; O Desfecho; A Mosca Azul - da série intitulada Ocidentais, que no ano de 1879 tiveram as primeiras aparições publicadas na Revista Brasileira (BANDEIRA 1939, p.11). Esta série de poesias apenas foi publicada em sua totalidade posteriormente em 1901, fazendo parte do que formaram o volume das Poesias Completas (CASTELLO, 1999 vol. I; p.306). Notamos aí que a poesia de Machado atinge o ápice de uma evolução gradativa, que seguida de sua obra em prosa As Memórias Póstumas de Brás Cubas de 1881, sugerem já uma mudança radical do ponto de vista do escritor, que de acordo com Roberto Schwarz rearranjava a parafernália da ficção romântica de modo a sintonizá-la com uma questão histórica real, embutida nas linhas característica da sociedade brasileira, que lhe imprimiam a nota específica (SCHWARZ, 1998). Trata-se então de uma polarização dialética própria do trabalho do artista moderno em seu contesto histórico sócio-cultural para a realização de sua obra, que em nosso entendimento, já podem ser detectadas nas poesias machadianas das Ocidentais, (...) um exemplo heterodoxo de universalização do particular e de particularização do universal, ou de dialética (...), propriamente dito (SCHWARZ, 1998).

No processo de produção da poesia de Machado de Assis tornou-se um tanto óbvio a sua vinculação com o Parnasianismo, o que caracteriza na poesia o retorno à orientação clássica, ao princípio do belo na Arte, à busca do equilíbrio e da perfeição formal, indiferente ao mundo exterior. Mas um dado importante nos faz suspeitar da obviedade de associação direta do movimento com a poesia machadiana. Trata-se da assertiva de que ao se referir em uma crítica à nova geração de poetas em 1879, Machado de Assis nem se quer menciona o termo parnasiano, o mesmo (...) não aparece nem nos prefácios nem nas críticas senão pelos meados da década de 80. Falava-se sempre era em “realismo”, “Idéia Nova”. A estética parnasiana cristalizou-se entre nós depois da publicação de um livro em 1882 (...) (BANDEIRA, 1997 p.409). De um modo geral, pode-se atribuir ao Parnasianismo uma visão existencial do homem que se reduzia às aspirações do amor e da glória. Tais elementos de certa forma não passavam de ilusões que alimentavam a existência ou que impulsionavam uma conduta, que poderia atuar isoladamente ou em conformidade com as partes envolvidas. Porém, em tratando da sondagem astuciosa machadiana sobre a realidade brasileira, que apontava para significativas transformações políticas e sociais, abaixo das quimeras e entusiasmos extremos parnasianos, encontra-se reservado um juízo vigoroso acerca da existência mesma. Ora, observamos que em se tratando de um poeta considerado desde o início um mestre pelos nossos chamados parnasianos, seja na criação poética como em sua reflexão crítica, Machado propunha a sobriedade no tratamento temático tendente à reflexão, contornando o emocional através de um trabalho discreto, em suma racionalizando a comunicação de sentimentos (CASTELLO, 1999 vol.II; p.304). É importante considerarmos neste aspecto, que o estro machadiano sugere a oralidade, ou seja, pressupõe ou convoca a atenção do outro, o leitor ouvinte, para as mencionadas aspirações da existência humana, que podem ser vistas dialeticamente em conflito, sobretudo por encontrarem por um lado no domínio da subjetividade, e por outro lado nos limites das relações sociais. Em uma esfera que dificilmente podem-se romper as tensões e estabelecer equilíbrio.

Cabe-nos ressaltar juntamente com crítico Manuel Bandeira que (...) infelizmente o poeta calou-se quando chegado ao alto da montanha (BANDEIRA, 1939 p.11). A vocação de prosador se impôs de tal modo que a retórica de Machado de Assis faz dele mesmo um narrador no sentido atribuído por Walter Benjamim, ou seja, (...) o narrador é o homem que poderia deixar a mecha de sua vida consumir-se integralmente no fogo brando de sua narrativa (BENJAMIM, 1983 p.74). Neste mesmo sentido benjaminiano, poderíamos entrever que Machado de Assis se supera com a prosa, já que a relação que o poeta mantém com sua matéria, a vida humana, é ela própria uma relação artesanal. O próprio Machado oferece pistas dessa grave noção de artífice literário, quando argumenta em 1879, na crítica Nova Geração, que (...) a poesia não é, não pode ser eterna repetição; esta dito e redito que ao período espontâneo e original sucede a fase da convenção de do processo técnico, e é então que a poesia, necessidade virtual do homem, forceja por quebrar o molde e substituí-lo (MACHADO DE ASSIS, 1997 p. 810).

Se na crítica podemos perceber a lucidez de Machado de Assis para com a realidade literária brasileira, atestando que a (...) poesia subjetiva chegara efetivamente aos derradeiros limites da convenção (...) e ainda chama atenção para a questão de que não há como esquivar-se às condições do ambiente social então vigente, ou seja, a influencia externa determina o movimento de uma geração de poetas seja qual forem seus talentos (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.813); de outro modo, é possível notar a mesma concisão e perspicácia que testemunha o ponto de vista do escritor brasileiro no poema que encerra as Ocidentais:

NO ALTO

O poeta chegara ao alto da montanha,

E quando ia a descer a vertente do oeste,

Viu uma cousa estranha,

Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,

Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,

Num tom medroso e agreste

Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce,

Ou bem como se fosse

Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.

Para descer a encosta

O outro estendeu-lhe a mão. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p. 179)

É inevitável formar a idéia de que já se resguarda aí a argúcia do autor e do narrador de As Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Todavia, é escusado dizer que o tom melancólico, não destituído da ironia machadiana, aponta para uma noção de perplexidade diante da realidade e situação brasileira, bem como para a responsabilidade de escritor, que já na ocasião enxergava como crítico e sentenciava, (...) não há por ora no nosso ambiente a força necessária à invenção de doutrinas novas. Creio que isto chega a ser uma verdade de La Pallisse (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.803). Trata-se do desenvolvimento de um ponto de vista que adquire uma radicalização pessimista.

Provavelmente, para os desígnios literários que abrange Machado de Assis nas relações entre literatura e sociedade, a partir de seu ponto de vista efetivado entre a fleuma e a crueldade, a prosa desenvolvidas no romance e no conto, permitiria uma crítica sócio-política mais acintosa, objetiva e precisa da realidade brasileira do século XIX, e que ainda se faz presente. No que se refere à atualidade de Machado de Assis há uma interessante assertiva de Schwarz de que a cada geração a vida intelectual no Brasil parece recomeçar do zero, em função de um anseio por novidades provenientes da produção intelectual dos países considerados avançados. O mesmo acarreta no (...) desinteresse pelo trabalho da geração anterior, e a conseqüente descontinuidade de reflexão (...), percepções e teses notáveis a respeito da cultura do país são decapitadas periodicamente, e problemas a muito custo identificados e assumidos ficam sem o desdobramento que lhes poderia corresponder (...) (SCHWARZ, 1986). Assim, considerando o conjunto da obra machadiana, confirma-se que não lhe faltou informação, bem como a abertura para o interesse atual.

Não obstante, Manuel Bandeira ao se referir às Ocidentais nos chama atenção para o fato de que (...) os temas que cristalizaram as melhores energias poéticas de Machado de Assis, são os mesmos de suas obras referenciais tanto no conto como no romance. Bandeira ainda argumenta que (...) a vida dos seus semelhantes lhe fornecia maior variedade de gestos com que exprimir as dolorosas conclusões da sua análise implacável. Na poesia, forma mais essencial, toda sua amarga filosofia estava expressa e esgotada naqueles poucos e admiráveis poemas (BANDEIRA, 1939 p.14). Torna-se evidente que o domínio das técnicas literárias por parte de Machado de Assis, incluindo naturalmente as exigências da metrificação do verso em seu tempo, contribuíram para sua linha evolutiva como escritor. Outro dado relevante que orientou este desenvolvimento é o que assegura Antônio Candido, ou seja, Machado de Assis pressupõe a existência dos predecessores, e esta é uma das razões da sua grandeza: numa literatura em que, a cada geração, os melhores recomeçam “da capo” e só os medíocres continuam o passado, ele aplicou o seu gênio em assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores (CANDIDO, 1997 p.104).

Não podemos deixar de considerar que se existem qualidades em Machado de Assis, estas não são meramente pessoais. Sua obra afirma uma universalidade a partir de um complexo caráter local que procede da apropriação de uma técnica. Admitir qualquer coisa ao contrario disso poderia se incorrer num mero equivoco de subjetividade ou lirismo romântico, ou mergulhar num misticismo embusteiro. Portanto, é significativo que haja em Machado de Assis uma perspectiva que ultrapassa o pessoal e que se radicaliza de modo dialético trágico, irônico e pessimista, por uma via de negatividade, e também porquê distingue-se em seu procedimento de escritor, autor ou artista, o que poderíamos chamar de um horizonte de nação. E neste mesmo propósito identificamos no poema que abre as Ocidentais algo que não poderia ter sido escrito num ambiente que não fosse o Brasil vivenciado por Machado de Assis:

O DESFECHO

Prometeu sacudiu os braços manietados

E súplice pediu a eterna compaixão,

Ao ver o desfilar dos séculos que vão

Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,

Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...

Súbito, sacudindo as asas de tufão,

Fita-lhe a água em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a víscera do herói,

Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,

Deixou de renascer às raivas que a consomem.

Uma invisível mão as cadeias dilui;

Frio, inerte, ao abismo um corpo morto rui;

Acabara o suplício e acabara o homem. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.151)

.

Chamamos a atenção para confirmar a perplexidade que este soneto suscita, a começar pelo personagem central da tragédia de Ésquilo. E este mesmo herói trágico é uma referência para aqueles que apreciam a aptidão de realmente poder mudar a realidade. Trata-se de um mito da mudança definitiva, e também do mito fundador da cultura. Curiosamente, Marx o tem como herói favorito por esse seu significado transformador e pelo seu caráter de revolta descrito em sua tese de doutorado de 1841, e que é bastante compatível com a descrição que Goethe faz acerca de um homem que se nega a venerar deuses ou estar sob submissão de alguém. (...) A consciência não pode ser nunca outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é um processo de vida real (MARX Y ENGELS, 1958 p.25). Um outro dado significativo é que Prometeu também diz respeito àquele que sabe antecipadamente, o que demonstra mais uma vez a argúcia do poeta na proposição do título do poema (O Desfecho) que dialeticamente abre as Ocidentais. Notamos aí um traço da ironia, bem como aspectos do pessimismo machadiano que denota um sentido de destino, ou seja, se no início do soneto o poeta parece sugerir ou dar um jeito na situação do herói, posteriormente, aos poucos, o que há é uma espécie de descrença total que dá cabo do destino do mesmo. O que aponta para uma clara noção de perplexidade perante a situação, que de soslaio é bem realista e característico do autor.

É importante salientar que perplexidade trata-se de um estado intelectual de indecisão, ou ainda um estado emotivo que surge a partir de um certo grau de confusão, além de conflitos impulsivos. Platão enunciou que a perplexidade era também fonte da Filosofia, pois o homem busca respostas às questões que o deixam atônito ou irresoluto (SANTOS, 1965 p.886) Portanto, se nos reportarmos ao ambiente político-social vivenciado por Machado de Assis, através de seu trabalho de artista podemos supor as interrogações que nele eram suscitadas. Pois se a razão se constitui neste aspecto, todas as coisas são perguntas, as quais provocam a indecisão e a falta de clareza.

A perspicácia de Machado de Assis tinha como grande desafio a própria realidade, ou seja, o contato com o real da sociedade brasileira diferenciava-o dos outros escritores que também as piravam por um horizonte de nação. Machado acaba sugerindo-nos através dessas suas poesias que o trágico, a crueldade, são fundamentais para sermos aquilo que somos hoje. Trata-se de uma defesa do real que é inexorável, e não uma distorção do mundo como de fato é, e aí se encontra a complexa questão que envolve a noção de ideologia e conseqüentemente a reificação e a fetichização, que tendem para o abismo da subjetividade, alienação e ao mesmo tempo a sujeição ou dependência. Na arte machadiana nunca temos uma resposta suficiente aos porquês, mas uma iluminação para os problemas. E isto define um ofício fundamental para a grande obra de arte. Se do contrário obtivéssemos uma resposta, estaríamos estabelecendo uma troca do que é pelo que parece ser, o que define um processo de reificação, que por sua vez leva a refletir-se na própria ilusão.

Não obstante as acentuadas críticas ao Machado poeta em detrimento do grande prosador, as Ocidentais traz um poema cujo tema aponta para as características machadianas do narrador de As Memórias Póstumas..., Com a diferença de que o personagem que serve de inspiração para o poeta, é o excluído da sociedade. E ainda podemos ter um a noção de que o estilo se encontra no domínio da própria técnica bem como também sugere uma reflexão dialética sobre o risco constante que a Arte corre, desde que moderna, em seu processo de autonomização de tornar-se ela mesma, fetichizada:

A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,

Filha da China ou do Indostão,

Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,

Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e Zumbia,

Refulgindo ao clarão do sol

E da lua, - melhor do que refulgiria

Um brilhante do Grão-Mongol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,

Um poleá lhe perguntou:

“Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,

Dize, quem foi que to ensinou?”

Então ela, voando, e revoando, disse:

“Eu sou a vida, eu sou a flor

Das graças, o padrão da eterna meninice,

E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo,

E tranqüilo, como um faquir,

Como alguém que ficou deslembrado de tudo,

Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto, a voltear no espaço,

Uma cousa lhe pareceu

Que surdia, com todo o resplendor de um paço.

E viu um rosto, que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,

Que tinha sobre o colo nu

Um imenso colar de opala, e uma safira

Tirada ao corpo de Vichnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,

Aos pés dele, no liso chão,

Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,

E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, Graves, de pé, cem etíopes feios,

Com grandes leques de avestruz,

Refrescam-lhes de manso os aromados seios,

Voluptuosamente nus.

Vinha a Glória de pois; - quatorze reis vencidos,

E enfim as páreas triunfais

De trezentas nações, e os parabéns unidos

Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto

Das mulheres e dos varões,

Como em água que deixa o fundo descoberto,

Via limpos os corações.

Então ele, estende a mão calosa e tosca,

Afeita a só carpintejar,

Com um gesto pegou na fulgurante mosca,

Curioso de a examinar

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.

E, fechando-a na mão, sorriu

De contente, ao pensar que ali tinha um império,

E para casa partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece

Que se houve nessa ocupação

Miudamente, como um homem que quisesse

Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,

Rota, baça, nojenta, vil,

Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela

Visão fantástica e subtil.

Hoje, quando ele aí vai, de aloé e cardamomo

Na cabeça, com ar taful,

Dizem que ensandeceu, e que não sabe como

Perdeu a sua mosca azul. (MACHADO DE ASSIS, 1997 p.163)

Em um exame mais atento em se tratando de uma exposição panorâmica da história do Brasil, através da Literatura, o que se percebe é uma situação bastante peculiar. Até meados de 1810 com a recém chegada Corte Portuguesa no Brasil, não havia uma proximidade entre as classes sociais, as regiões ignoravam-se. Os agrupamentos se davam em pouco espaço, como é mencionado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, talvez o mesmo se dava pela dimensão territorial desproporcional ao número de pessoas. Dentre as várias metáforas machadianas a que diz respeito à plasticidade e maleabilidade da sociedade brasileira, parece ser privilegiada, além do quê Machado torna-se justamente um arguto crítico da abstração da qual o Brasil era tratado pelos seus. De um lado a exuberância da natureza, de outro o mar, e de certa forma no meio uma faixa na qual a população habita.

As Ocidentais, que por ora destacamos três significativos poemas, apresentam um Machado de Assis que se preocupa em descrever uma imagem do Brasil, que será coroada com a obra romanesca que se segue. Tal imagem que ocorre através da criação literária supre o desejo de se ter uma identidade própria, sobretudo depois da Independência. Ora, a partir da necessidade de se definir, o Brasil cria-se uma literatura para dar-se uma imagem. Porém, é interessante notar que a via machadiana para estabelecer uma noção de brasilidade surge de uma recusa, que pode ser exemplificada pela crítica que o próprio Machado faz à hegemonia positivista que se afirma na passagem da abolição da escravatura e a proclamação da República. E se há uma representação, um progresso mimético que em Machado de Assis culmina dialeticamente numa mudança radical de ponto de vista, que deixa entrever uma posição política do artista, por outro lado a questão nacional se torna espinhosa, justamente em sua literatura de estatura universal, aquela que tem um sentido de perplexidade e crueldade. A crítica literária contemporânea em sua representação deve-se buscar um horizonte nacional, uma retomada do projeto de nação, e a melhor sugestão é a de partir dos silêncios e sussurros machadianos, da densidade das contradições de Machado de Assis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

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______________________ Crítica. Obras Completas; vol. III 9 ed., Rio de Janeiro, Aguillar.

BANDEIRA, Manuel_ (1939) O Poeta (Publ. em Revista do Brasil, RJ, ano II,no. 12, jun). In: ASSIS, Machado de (1997) Obras Completas; vol.III 9 ed., Rio de Janeiro, Aguillar

____________________(1997) Seleta de Prosa; Rio de Janeiro; Nova Fronteira.

BENJAMIN, Walter (1983) O Narrador; in: Textos escolhidos ( Os Pensadores); 2 edição, São paulo; Abril Cultural.

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SANTOS, Mário Ferreira dos (1965) Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais- vol. III 3 edição; São Paulo; Editora Matese.

SCHWARZ, Roberto (1986) Nacional por Subtração - http://antivalor.vilalol.uol.com.br/schwarz_index.htm

Acesso em: 02/07/2007

_________________(1998) A Viravolta Machadiana - http://antivalor.vilalol.uol.com.br/schwarz_index.htm

Acesso em: 27/06/2007